terça-feira, 15 de novembro de 2016

O Escafandro e a Borboleta (2007)





O filme conta a história real do ex editor da revista de moda Elle, o francês Jean-Dominique Bauby, que após um AVC fica com o corpo totalmente paralisado. No entanto, sua mente continua funcionando perfeitamente, mas devido ao estado vegetativo é como se Bauby estivesse encarcerado em seu próprio corpo, sem poder se expressar ou até mesmo se mexer. Ele é diagnosticado com uma doença chamada de “síndrome do encarceramento”, que só o permite mexer o olho esquerdo, transformando o seu corpo em uma espécie de “escafandro” nome dado aos trajes metálicos de mergulho de antigamente.

Passado o choque inicial de se ver nessa situação desesperadora, Bauby começa a se comunicar através de um sistema ensinado pela sua médica, no qual as pessoas vão ditando o alfabeto para ele e quando chega na letra que ele quer o mesmo dá uma piscada. Formando assim palavras, que formam textos, e que chegaram inclusive a formar um livro. Sim, utilizando esse sistema Bauby conseguiu com a ajuda de uma assistente escrever um livro descrevendo a sua experiência de clausura após o AVC. O livro tem o mesmo nome do filme, e foi usado de base para a criação do roteiro do longa-metragem.

Apesar da forte história de superação, era preciso um diretor que soubesse abordá-la da maneira certa, sútil, sem muito melodrama. E Julian Schnabel se mostrou a pessoa certa para dirigir o longa. Com esse material em mãos a maioria dos diretores apelaria para o sentimentalismo barato, e tentaria contar a história de maneira convencional, abusando do drama do Bauby com a tradicional “fórmula hollywoodiana” para arrancar lágrimas do expectador. 

No entanto, Schnabel faz da sutileza e do experimentalismo seus grandes méritos. Apesar do filme ter sim, muitos momentos tristes e fortes, o diretor os transmite de maneira inteligente. Primeiramente com o uso da câmera subjetiva no olho de Bauby, o diretor mostra todo o desespero e a angústia do protagonista através da sua própria visão. Praticamente toda a primeira meia hora do filme é filmada em primeira pessoa, o expectador tem acesso ao que Bauby está vendo e pensando, o que acaba colocando o público na pele do protagonista.

Só depois de algum tempo de filme o diretor começa a usar contra planos para mostrar o rosto de Bauby. No entanto, mesmo após a diminuição da câmera subjetiva, Schnabel continua dando outras mostras da sua criatividade e talento como diretor.  Como quando são mostrados sonhos metafóricos do protagonista se imaginando no fundo mar preso no seu escafandro, ou então sozinho em meio paisagens deslumbrantes no meio do nada, tudo para dar a sensação de solidão de Bauby.

Falando ainda sobre os sonhos e pensamentos do protagonista, a fotografia do filme é espetacular para fazer o público se identificar com os sentimentos de Bauby. Através de imagens belíssimas e muito fortes o diretor consegue ilustrar perfeitamente o que se passa na cabeça do protagonista.

Outro ponto interessante do longa é o uso inteligente dos flash backs. Apesar de ser um recurso cinematográfico largamente utilizado e muitas vezes de forma cafona e sem
criatividade, em o Escafandro e a Borboleta o diretor o usa na hora certa e de forma perspicaz. Os flash backs só começam a serem mostrados depois de algum tempo no filme, somente depois que o expectador já criou uma curiosidade de saber como era o Jean-Dominique Bauby antes do acidente. E quando começam a serem mostrados, os flash backs apresentam um Bauby popular, extrovertido e bem sucedido, tudo que ele não é após o AVC. No entanto, o diretor deixa claro que aquele Bauby de antes ainda vive dentro do atual, como se fosse uma borboleta presa dentro de um casulo.

Apesar da brilhante direção de Schnabel, o filme não seria tão bom se o nível das atuações também não o fosse. E apesar de sutis como o filme todo, elas são bem marcantes. A começar pelo protagonista interpretado por Mathieu Almaric, que consegue se sair muito bem tanto como o antigo, debochado e descolado Beauby, quanto como a sua nova versão vegetativa e angustiada. O ator passa muito bem os diferentes estados de espírito do protagonista.

O restante do elenco também está muito bem. Com destaque para Emmanuelle Seigner como Celine, a ex mulher de Bauby e Marie-Josée Croze como Henriette Roi a médica que ensina o sistema de letras e piscadas para o protagonista. Ambas conseguem transmitir muito bem todo o carinho e a devoção que tem por Beauby, sem deixar de lado a dor que o mesmo causa nelas. Celine, se ressente por Beuaby a ter deixado por uma mulher mais jovem, mas não consegue esquecer o ex marido e sofre tanto com o estado de saúde de seu antigo cônjuge, tanto com a desilusão amorosa. Enquanto que Henriette faz do tratamento de Bauby sua grande missão, mas fica triste quando o mesmo quebra a sua expectativa de ajuda-lo não se dedicando devido a um inicial sentimento de derrota.

O único ponto negativo do filme, se é que podemos chamar de negativo é a lentidão do filme. Para um expectador que não é acostumado com esse tipo de filme pode ser um pouco maçante assistir o Escafandro e a Borboleta, principalmente na primeira meia hora em que é usada praticamente só a câmera subjetiva. No entanto, a lentidão não chega a ser arrastada, é proposital e ajuda a contar melhor a história do filme.

Concluindo, O Escafandro e Borboleta é um filme forte, porém sutil, que abusa do experimentalismo por trás das câmeras para provocar sentimentos nos expectadores. É sem dúvida um dos melhores filmes franceses da década passada, tanto é que ganhou diversos prêmios. 2 Globos de Ouro, (melhor filme estrangeiro e melhor direção), 2 Cannes (Direção e Grande Prêmio Técnico), BAFTA (Melhor roteiro adaptado), além de 4 indicações ao Oscar, nas categorias de Direção, Fotografia, Roteiro Adaptado e Edição. Portanto, se você é fã de cinema europeu, sobre tudo o francês, ou só está afim de ver algo inovador e de qualidade, O Escafandro e Borboleta é uma excelente pedida!



domingo, 13 de novembro de 2016

Doutor Estranho (2016)



Baseado nos quadrinhos da Marvel, Doutor Estranho, conta a história de um bem-sucedido e arrogante cirurgião, Stephen Strange, que após perder parte dos movimentos das mãos em um acidente de carro fica impossibilitado de exercer a sua profissão. Desiludido com a sua condição, Stephen Strange parte em uma jornada mística para o que aparenta ser um templo budista no Nepal onde espera recuperar totalmente o movimento das suas talentosas mãos. No entanto, ao começar o seu treinamento no templo, Strange, passa a ter contato com um mundo fantástico de magia e outras dimensões, e acaba se tornando um mago que tem como missão proteger a terra de ameaças de outros mundos.

Em termos de estrutura narrativa, o filme repete a velha fórmula da Marvel, com uma história de origem pouco original, a ação bem executada e as tradicionais “piadinhas” de alívio cômico. No entanto, Doutor Estranho, se diferencia da maioria dos filmes da Marvel por 2 motivos, pela temática mais mística, e pelo visual deslumbrante.  Apesar dos filmes da Marvel serem bem fantasiosos, nenhum deles se compara a Doutor Estranho. Enquanto a maioria dos heróis desse universo tem uma origem apoiada pela ciência, Doutor Estranho é pura magia e misticismo. Quanto ao visual, esse é o grande mérito do filme. Com efeitos especiais muito bons, o filme impressiona muito nesse quesito. Há algumas sequências de cidades e prédios sendo dobradas e retorcidas que lembra muito A Origem, só que desta vez em uma escala muito maior. Além disso, o visual psicodélico e os efeitos especiais das magias também são muito bem feitos e garantem um espetáculo visual.

Quanto ao roteiro em si, apesar de ser mais do mesmo que a Marvel já vem fazendo, esse “mais do mesmo” é muito bem executado e garante uma boa diversão para quem assiste o filme apenas em busca de diversão e nada mais.  Tirando o personagem principal a maioria do núcleo de apoio não é bem desenvolvido. Falta profundidade para a maioria dos personagens que acabam ficando muito rasos. As exceções, além de Stephen Strange, são a Anciã, interpretada muito bem pela ótima Tilda Swinton e Karl Mordo vivido por Chiwetel Ejiofor (12 anos de Escravisão), esses personagens tem um bom arco dramático e a atuação de ambos está muito boa.

De resto, o que vemos é um verdadeiro desperdício de bons talentos com personagens fracos e que só estão ali para dar um apoio. É o caso dos excelentes Mads Mikkelsen (A Caça) e Rachel MacAdams (True Detective), que apesar de serem grandes atores tem a sua atuação fortemente limitada por papeis fracos e unidimensionais. Mikkelsen interpreta o vilão do filme, Kaecilius, que a exemplo da maioria dos vilões da Marvel e desinteressante e mal desenvolvido. Enquanto que MacAdams interpreta a Doutora Cristine Palmer, que claramente só está no filme para ser o par romântico do Doutor Estranho, nada mais que isso.


Resumindo, Doutor Estranho é um filme bem divertido e com uma estética visual muito bem elaborada, tem um bom elenco, mas nem todos são aproveitados de forma satisfatória. Resta a curiosidade de saber como esse personagem mais diferente vai ser inserido no universo compartilhado da Marvel, as cenas pós-crédito já dão um bom indício de como vai ser.