domingo, 1 de janeiro de 2017

3%


Primeira série brasileira da Netflix, 3% se passa em um futuro distópico onde a população é dividida entre o povo que mora no continente (na pobreza absoluta) e a elite que mora no Maralto (na riqueza, com abundância de recursos). Quando completam 20 anos todos os moradores do continente têm direito a prestar uma prova de admissão para morar no Maralto, exame conhecido como “O Processo”. Neste processo seletivo os participantes são avaliados nos mais diversos quesitos, como inteligência, força física e liderança. No entanto, a prova só admite 3 % do total dos participantes, e quem não passa na prova não pode voltar a participar nunca mais, ficando condenado a pobreza.

É com essa trama que a série dirigida por Pedro Aguilera é apresentada ao público. À primeira vista a série parece cair no clichê que se tornou o gênero de distopias adolescentes como Jogos Vorazes, Divergente e Maze Runer. Em parte 3% é sim muito parecida com essas produções norte americanas, no entanto, não deixa de lado a crítica social de pano de fundo ao entretenimento, assim as primeiras distopias da literatura e do cinema como 1984, Admirável Mundo Novo e Metrópoles. É claro que 3% não chega aos pés desses clássicos, no entanto, bebe muito da fonte deles no que tange a temática da luta de classes e do governo totalitário.

A principal crítica de 3% é uma clara alusão ao processo do vestibular, e o seu sistema “meritocrático”.  A série questiona até que ponto essa meritocracia é de fato verdadeira, se realmente é levado em conta apenas o mérito puro e simples nesses tipos de processos seletivos. No seriado, os avaliadores do Processo permitem que alguns candidatos trapaceiem e que usem de jogo sujo em algumas provas, mostrando que não é apenas o mérito que está em jogo nessa avaliação. Assim como o vestibular que se vende como um processo meritocrático, mas que não considera as diferenças entre estudantes de escola pública e particular.

 O ponto forte da série é que ela é muito instigante, cada episódio deixa ganchos  que fazem com que o telespectador queira maratonar 3%. A trama é muito boa, e consegue cumprir muito bem o papel que um bom roteiro de seriado deve ter, despertar a curiosidade da audiência para saber logo o que acontece no episódio seguinte e fazer com que o expectador assista a vários capítulos em sequência, mantendo o interesse na série. No entanto, apesar do roteiro da história em si ser muito bem construído e instigante, alguns diálogos da série deixam muito a desejar, abusando de explicações desnecessárias e tornando algumas falas um tanto quanto toscas.

Os grandes pontos negativos da série com certeza são o elenco de apoio e os diálogos. Ao contrário do elenco principal que conta com atores muito bons como Bianca Comparato (A Menina sem Qualidades) e João Miguel (Estômago), o elenco de apoio é composto por atores que beiram o amadorismo, em parte pela falta de expressão e em parte principalmente pela baixa qualidade dos diálogos. Os diálogos são muitas vezes excessivamente explicativos, ao invés de mostrar com ações o que os personagens estão sentindo, os roteiristas tentam explica-las através dos diálogos. Por exemplo: O personagem diz em voz alta que está muito triste com determinada situação, ao invés de apenas ser mostrada a sua expressão de tristeza. Nesse ponto, alguns dos diálogos da série lembram muito os diálogos de novelas, altamente explicativos para garantir que o telespectador entenda o que está acontecendo.

Sobre as atuações do elenco principal, estas são muito boas, especialmente as de Bianca Comparato no papel de Michele e de João Miguel no papel de Ezequiel. Bianca trabalhou em diversas novelas da Globo, mas apesar disso tem um estilo de atuação bem cinematográfica, trabalhando muito bem com as expressões, sobretudo as expressões mais contidas. Enquanto que João Miguel, que já tem uma carreira maior no cinema, dá um verdadeiro show como avaliador do Processo, com uma interpretação que possui várias camadas, o ator vai da frieza ao desespero, mostrando bem toda a complexidade desse que de fato é personagem mais interessante da série.

Por fim, apesar de algumas falhas, 3% é um vento novo muito bem-vinda a produção do audiovisual brasileiro. Num país conhecido pela qualidade dos seus filmes mais cults, mas que ainda peca no cinema mais comercial, a série representa algo novo e de qualidade (caso contrário a Netflix não teria acreditado no projeto). Primeiro porque 3% é uma série nacional, tipo de produção bem escassa no Brasil, realidade que finalmente está mudando devido a lei de incentivo as produções de audiovisual brasileiro que renderam outras belas produções como Magnífica 70 e O Negócio. Segundo porque trata de um gênero pouquíssimo abordado nas produções tupiniquins, Ficção Científica e Distopia.

Concluindo, 3% é indicado tanto para os fãs de distopias adolescentes, quanto para os fãs das distopias mais hardcore, como 1984 e Admiravél Mundo Novo. Em maior grau aos fãs das distopias adolescentes, mas há na série elementos que também cativarão fãs menos radicais das distopias antigas. É uma série muito fácil de maratonar para os expectadores que tem essa prática, principalmente devido a sua narrativa rápida e instigante. Por fim, para quem quer ver uma produção brasileira de qualidade e diferente do habitual, 3% é uma excelente pedida!



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